
Augusto Melo é expulso do Corinthians: fim de uma era e semana que muda a história do clube
Em sete dias, três ex-presidentes deixaram de ser sócios do Parque São Jorge. Andrés Sanchez foi expulso, Duilio renunciou e agora Augusto Melo recebeu o mesmo destino — por tentar dar um golpe e voltar ao poder depois do impeachment
Emerson Melo
6/2/2026
147 votos a favor. Apenas 5 contra. O Conselho Deliberativo do Corinthians não teve dúvidas. Augusto Melo — ex-presidente impeachado, réu por lavagem de dinheiro e acusado de tentar dar um golpe para voltar ao poder — está fora do clube. Para sempre.
Havia torcedores em frente ao Parque São Jorge. Havia faixas. Havia gritos de "Augusto picareta" ecoando nas ruas de Itaquera. E havia, dentro do clube, um Conselho Deliberativo que desta vez não precisou de muito
tempo para decidir: 147 votos a favor da expulsão, apenas 5 contra. Augusto Melo está fora do quadro associativo do Corinthians — e com ele se encerra uma das páginas mais vergonhosas da história recente do clube.
A decisão aconteceu nesta segunda-feira, 1 de junho, e é o desfecho de uma semana que entrou para os anais do futebol brasileiro. Em sete dias, o Corinthians expulsou dois ex-presidentes e assistiu a um terceiro renunciar voluntariamente. Nunca na história do clube algo parecido havia acontecido. E que bom que aconteceu.
A semana que limpou o Parque São Jorge
25/05 - Andrés Sanchez — expulso por gastos pessoais de R$ 480.169,60 no cartão corporativo do clube
28/05 - Duilio Monteiro Alves — renunciou ao título de sócio e ao posto de conselheiro vitalício
01/06 - Augusto Melo — expulso por 147 a 5 após tentativa de golpe para retomar a presidência
Quem é Augusto Melo e como chegou até aqui
Augusto Melo chegou à presidência do Corinthians em 2023 como a alternativa ao grupo de Andrés Sanchez, que havia governado o clube por 16 anos. A promessa era de renovação, transparência e fim dos esquemas que haviam deixado o Corinthians endividado. A realidade foi diferente — e muito pior do que muitos imaginavam.
O primeiro contrato da sua gestão foi com a Vai de Bet, casa de apostas que trouxe para o Corinthians um patrocínio de R$ 360 milhões. Em maio de 2024, o negócio virou escândalo: o contrato previa o pagamento de 7% do montante líquido de cada parcela a uma empresa intermediadora — a Rede Media Social Ltda — que a Polícia Civil posteriormente apontou como parte de uma rede de empresas fantasmas usada para desviar recursos. O dinheiro, segundo as investigações, teria chegado a uma empresa ligada ao PCC.
A Vai de Bet rescindiu o contrato unilateralmente em junho de 2024. O escândalo abriu pedidos de impeachment. Em julho de 2025, Augusto Melo tornou-se réu na Justiça de São Paulo por associação criminosa, lavagem de dinheiro e furto qualificado pelo abuso de confiança. Em agosto, o impeachment foi referendado em Assembleia Geral dos sócios. Ele estava fora.
Ou pelo menos deveria estar.
A tentativa de golpe que selou seu destino
Depois de afastado do cargo, Augusto Melo não aceitou a derrota em silêncio. Em maio de 2026, já com o impeachment sacramentado, o ex-presidente tentou uma manobra política para retomar o poder — e foi exatamente esse episódio que motivou sua expulsão definitiva do quadro associativo.
A jogada envolveu Maria Ocampos, vice-presidente do Conselho Deliberativo, que se autodeclarou presidente do órgão com base num documento que supostamente provava que Romeu Tuma Jr., então presidente do Conselho, estava afastado por decisão do Comitê de Ética. O argumento era de que todos os processos conduzidos por Tuma Jr. — incluindo o próprio impeachment — deveriam ser anulados.
Com base nessa argumentação, Augusto Melo invadiu a sala da presidência do Parque São Jorge, na presença do presidente Osmar Stábile, e tentou reassumir o cargo. A cena foi de confusão generalizada nas dependências do clube. No fim das contas, o ofício apresentado por Ocampos foi considerado inválido por não ter passado pelos trâmites necessários. A tentativa de golpe fracassou. E o Conselho Deliberativo abriu o processo que culminou na votação desta segunda-feira.
147 a 5: uma decisão sem ambiguidade
O placar da votação fala por si. Dos 152 conselheiros que votaram, 147 foram a favor da expulsão e apenas 5 contra. Não houve suspense, não houve equilíbrio, não houve margem para interpretação. O Conselho Deliberativo enviou uma mensagem clara: quem tenta subverter as instituições do clube, desviar recursos e dar um golpe para retomar o poder não tem lugar no Parque São Jorge.
Augusto Melo não esteve presente na reunião. Sua defesa foi conduzida pelo advogado Ricardo Jorge, que tentou — sem sucesso — obter uma liminar judicial para suspender a votação antes do início. Sem resposta da Justiça a tempo, a votação ocorreu normalmente.
Após a decisão, o advogado afirmou que a ação judicial continuará para tentar reverter o resultado. "Acho injusto, porque não foram feitas provas", disse Ricardo Jorge. A defesa de Augusto Melo, por sua vez, insiste que ele é "vítima de um processo ilegal e repleto de nulidades e abusos" — a mesma narrativa adotada desde o início das investigações.
Uma semana histórica — e o que ela significa
Para entender o peso desta semana, é preciso colocar tudo em perspectiva. Em sete dias, o Corinthians expulsou dois ex-presidentes e viu um terceiro renunciar. Andrés Sanchez, que governou o clube por 16 anos e foi investigado por uso pessoal do cartão corporativo, saiu expulso no dia 25. Duilio Monteiro Alves, aliado de Andrés e também investigado, publicou uma carta aberta anunciando a renúncia voluntária ao título de sócio e ao posto de conselheiro vitalício — alegando que "fizeram da sua vida um inferno". E agora Augusto Melo fecha o trio de ex-presidentes que deixaram de ser sócios do clube na mesma semana.
É difícil encontrar paralelo no futebol brasileiro para um movimento de limpeza institucional tão abrangente e tão rápido. Não se trata apenas de afastar dirigentes — trata-se de um recado da base associativa do clube ao deixar claro que as práticas do passado não serão toleradas.
O que vem pela frente
A expulsão de Augusto Melo não encerra os problemas jurídicos do clube — muito pelo contrário. O ex-presidente continua réu na Justiça de São Paulo, o processo da Vai de Bet segue em andamento e há outros ex-dirigentes envolvidos nas investigações. A herança financeira da gestão — dívidas, contratos suspeitos, processos — vai demandar anos para ser completamente destrinchada.
Mas do ponto de vista simbólico e institucional, o que aconteceu nesta semana representa um marco. O Corinthians, pela vontade expressa dos seus conselheiros, disse que não quer mais esses nomes dentro do clube. Não como presidentes, não como conselheiros, não como sócios.
A torcida que se reuniu em frente ao Parque São Jorge nesta segunda-feira, mesmo em número menor do que na semana passada durante a expulsão de Andrés, não estava lá apenas para celebrar uma votação. Estava lá para dizer que o clube pertence à Fiel — e que a Fiel não esquece, mas também não perdoa quem a traiu.


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