
Corinthians 0x2 Platense na Neo Química Arena: Encerramos a fase de grupos com derrota
Classificado em primeiro, o Corinthians entrou em campo sem a gana necessária, cometeu erros primários e foi punido pelo time argentino que jogou como se fosse uma final — porque para eles era
Emerson Melo
5/28/2026
Não é surpresa para quem acompanha o Corinthians na Libertadores há anos. Parece que tudo que pode dar errado nessa competição, dá. E quando o time entra sem o foco que o torneio exige, a conta chega — independente do adversário.
O Corinthians perdeu para o Platense nesta quarta-feira, 27 de maio, na Neo Química Arena, pela última rodada da fase de grupos da Copa Libertadores 2026. O resultado não
mudou o que importava na tabela — o Timão já estava classificado e terminou o grupo em primeiro lugar, com 11 pontos. Mas a derrota dói, e mais do que o placar, o modo como aconteceu merece análise.
Porque esse não foi um jogo em que o adversário foi simplesmente melhor. Foi um jogo em que dois times entraram com motivações completamente diferentes — e o que tinha mais a ganhar venceu.
Ficha do jogo
Resultado Corinthians 0 x 2 Platense
Competição Libertadores 2026 · Grupo E · 6ª Rodada
Local Neo Química Arena · São Paulo (SP)
Corinthians encerra grupo 1º lugar · 11 pontos
Dois times com motivações completamente diferentes
Para entender a derrota, é preciso entender o contexto de cada lado. O Corinthians entrava em campo já classificado, já garantido na liderança do Grupo E. A única motivação real era terminar com uma das melhores campanhas gerais da Libertadores para ter vantagem no chaveamento das oitavas — algo importante, mas que não move vestiários da mesma forma que uma eliminação iminente.
O Platense vivia situação oposta. O clube argentino precisava vencer para garantir a classificação às oitavas e ainda corria risco de ser ultrapassado pelo Independiente Santa Fe na tabela. Para os argentinos, aquele jogo era uma final. E deu para ver isso em campo: jogadores que saíram chorando ao apito final, que se abraçaram como se tivessem conquistado um título. Para o Platense — clube que vive sua primeira participação na Libertadores depois de conquistar o título argentino recentemente — classificar-se às oitavas é provavelmente o momento mais importante da história moderna do clube.
Essa diferença de gana é difícil de compensar com talento individual. E o Corinthians não compensou.
O gol e os erros que custaram caro
O primeiro gol da partida nasceu de uma combinação de erros que o Corinthians não pode se dar ao luxo de cometer — especialmente num clube com o histórico que tem nessa competição. A jogada começou com Hugo "pegando borboleta", Matheuzinho não conseguindo cortar a bola de cabeça, que acabou tocando no braço de Rodrigo Garro. O árbitro marcou pênalti. Discussão à parte sobre a rigidez da interpretação da regra, o fato é que a saída de bola do Hugo Souza no lance foi a primeira falha da sequência: o goleiro tomou uma decisão errada e acabou contribuindo para o pênalti ser gerado.
Na cobrança, categoria na execução. Mas a saída de bola ruim do goleiro não foi episódio isolado — é um padrão que aparentemente vem se repetindo (principalmente depois do seu nome ser veiculado ao elenco que disputará a copa do mundo mas tal fato não se concretizou).
E pra finalizar, o segundo erro ainda mais problemático e evidente, uma saída de bola errada com os pés, no pé do jogador do Platense...
Não é problema do sistema de Fernando Diniz, que exige saída jogando desde o goleiro. É um problema de execução num momento em que Hugo Souza parece menos confiante do que esteve em boa parte da temporada.
A questão Memphis: Copa do Mundo na cabeça?
Memphis Depay voltou a ser relacionado e jogou alguns minutos. Mas há uma questão legítima sobre o quanto o atacante holandês estava de cabeça neste jogo. Com a convocação da Holanda para a Copa do Mundo definida e o torneio começando em 11 de junho, um jogador que está se recuperando de lesão e que sabe que precisa jogar para ser escalado pelo técnico Ronald Koeman enfrenta um conflito de interesses real.
Ninguém pode afirmar o que estava na cabeça de Memphis. Mas é uma reflexão honesta: um atacante nessa situação vai entrar numa dividida pesada com tudo? Vai arriscar uma lesão num jogo que, para o Corinthians, já estava resolvido em termos de classificação? A resposta humana, não a resposta do atleta profissional ideal, provavelmente é não. E talvez a diretoria devesse ter avaliado melhor se era o momento certo de usá-lo justamente nesta partida.
A única chance clara que Memphis criou foi um chute de biquinho no final do primeiro tempo que não assustou. Pouco para um jogador do seu nível — mas compatível com alguém que está com a cabeça dividida entre dois compromissos.
Pedro Raul: um problema que não passa
Se há um jogador que resume a frustração da noite, é Pedro Raul. O centroavante entrou como opção para o setor de ataque e desperdiçou a oportunidade mais clara que teve: um cruzamento que chegou praticamente sozinho dentro da área, pedindo uma cabeçada que qualquer centroavante com características físicas como as dele deveria converter. O que aconteceu foi um cabeceio tão fraco que nem assustou o goleiro do Platense.
Pedro Raul foi contratado com investimento significativo. Sua principal característica anunciada era exatamente essa — ser um centroavante de área, forte no jogo aéreo, capaz de aproveitar cruzamentos. Quando chega a oportunidade e o resultado é o que foi, fica difícil defender — mesmo como opção de ataque.
As boas notícias: Caio César e Labyad
Em meio ao jogo burocrático e cheio de erros de passe do Corinthians, duas entradas no segundo tempo deram um mínimo de esperança. Caio César foi uma das poucas boas notícias da noite: driblador, com arranques pela ponta que criaram as escassas oportunidades do Timão no segundo tempo. Quando o Corinthians conseguiu algo ofensivo depois do intervalo, foi quase sempre a partir dos movimentos do jovem atacante.
Zakaria Labyad também tentou contribuir, com um chute que gerou escanteio e uma participação discreta mas positiva. O marroquino, que vinha sendo decisivo nos jogos anteriores — gol contra o Peñarol, gol contra o Atlético-MG —, não conseguiu repetir a magia desta vez, mas seguiu sendo uma das opções mais interessantes que Diniz tem no banco.
Yuri Alberto vaiado em Itaquera
Outro tema da noite foi a recepção da torcida a Yuri Alberto. Quando o atacante foi substituído, uma parcela da Fiel na Neo Química Arena manifestou desaprovação com vaias — algo que já havia sido percebido de forma mais discreta na partida contra o Atlético-MG, mas que desta vez ficou mais evidente.
O camisa 9 colheu o que plantou. Declarar publicamente, na zona mista após um jogo classificatório, que quer sair do clube na próxima janela de transferências é uma decisão que tem consequências. A torcida ficou com a sensação de que está torcendo por um jogador que já está de saída — e que talvez já esteja com a cabeça em outro lugar. As redes sociais lotaram de comentários pedindo que ele vá logo. O carinho que existia foi arranhado por palavras ditas fora de hora.
O histórico maldito na Libertadores
A derrota para o Platense não é uma catástrofe. O Corinthians segue classificado às oitavas em primeiro lugar no grupo, o que garante um chaveamento potencialmente mais favorável. Mas ela é mais um capítulo numa relação de amor e dor que o torcedor corintiano tem com a Libertadores.
A história está cheia de momentos em que a competição foi generosa e cruel com o Timão em proporções iguais. O título de 2012 foi o ponto mais alto. Mas as eliminações vexatórias, derrotas para times menores em jogos que pareciam ganhos formaram uma lista longa o suficiente para criar um trauma coletivo. A mensagem que esse jogo manda é simples: o Corinthians precisa entrar na Libertadores com o triplo do foco que entra em qualquer outra competição. Não dá para fazer conta, não dá para poupar energia, não dá para entrar achando que o resultado já está garantido. Porque na Libertadores, raramente está.
O que vem pela frente
Antes da parada para a Copa do Mundo, o Corinthians tem mais um compromisso pelo Brasileirão: enfrenta o Grêmio no domingo, fora de casa. Um empate já seria um bom resultado para encerrar esta fase antes do torneio e dar a Fernando Diniz um período tranquilo de trabalho para preparar o segundo semestre.
A derrota para o Platense não destrói nada do que foi construído. Mas serve de aviso: na Libertadores, o Corinthians não pode se dar ao luxo de entrar no modo econômico. Nunca.

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