Corinthians é condenado a pagar pensão a ex-jogador da base até os 75 anos: entenda o caso

Corinthians perde em segunda instância e pode ter de desembolsar cerca de R$ 2,5 milhões ao meio-campista que encerrou a carreira precocemente por negligência médica

Emerson Melo

5/12/2026

Kauê Moreira de Souza tinha 19 anos e um contrato com o Corinthians quando lesionou o joelho direito, em maio de 2021. Quatro anos depois, aos 25, se viu obrigado a encerrar a carreira antes mesmo de estrear no profissional. Agora, a Justiça deu razão a ele — e o clube terá de pagar por isso até 2076. O Corinthians voltou a perder no campo jurídico. Desta vez, a derrota não tem nada a ver com bola: a 8ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (TRT-2)

manteve a condenação do clube ao pagamento de pensão mensal e indenizações ao ex-jogador Kauê Moreira de Souza, de 25 anos, ex-atleta das categorias de base. A decisão, proferida em segunda instância, ampliou de forma significativa o período de pagamento e elevou alguns valores originalmente fixados na sentença de primeira instância.

De acordo com Filipe Rino, advogado do ex-jogador, o total da condenação permanece em torno de R$ 2,5 milhões — incluindo pensão mensal, indenização por danos morais e danos materiais. O Corinthians ainda pode recorrer ao Tribunal Superior do Trabalho (TST), e já sinalizou que pretende fazer isso. Mas o caso, por sua complexidade e pelo histórico médico documentado, tende a ganhar força conforme sobe a cadeia judicial.

Quem é Kauê Moreira de Souza?

Kauê chegou ao Corinthians em 2019, vindo das categorias de base de São Paulo e São Bernardo. Meio-campista, integrou o time sub-19 do clube e renovou o contrato seis vezes ao longo de cinco anos — cinco dessas renovações motivadas diretamente pelas lesões que acumulou no período. Ao todo, disputou apenas 13 partidas pelas categorias de base e nunca chegou a treinar com o elenco profissional.

Em maio de 2021, o ponto de virada: Kauê sofreu uma lesão no tendão patelar do joelho direito durante atividades do clube. O que veio depois, segundo a ação trabalhista movida pelo atleta, foi uma sequência de omissões e decisões médicas tardias que comprometeram definitivamente sua recuperação.

Naquele momento, o clube optou por não realizar cirurgia e encaminhou o jogador para tratamento fisioterápico. Em março de 2022, novos exames indicaram que a cirurgia era necessária — desta vez, descrita como urgente pelo médico Joaquim Grava. A operação aconteceu, mas o problema não foi resolvido. Em maio do mesmo ano, o médico César Janovsky concluiu que seria preciso uma nova intervenção para corrigir a primeira. Ela também não aconteceu naquele momento. Em agosto, o mesmo diagnóstico foi reiterado. Em vão.

No fim de 2022, infiltrações no joelho aliviaram temporariamente as dores, mas Kauê não voltou a jogar em 2023. Seguiu em fisioterapia até abril de 2024, quando o Corinthians não renovou seu contrato pela última vez. Entre a lesão e a saída do clube, foram três anos sem pisar num campo de futebol.

O que diz a ação trabalhista

A defesa de Kauê argumentou que o ex-atleta sofreu um acidente de trabalho e que o clube foi negligente no acompanhamento médico, atrasando procedimentos necessários e comprometendo de forma irreversível a carreira do jogador. Aos 24 anos — hoje tem 25 — ele precisou se aposentar do futebol.

Além do fim precoce da carreira, o ex-jogador relata que as sequelas do joelho afetam atividades do cotidiano: subir escadas, pedalar, dirigir e praticar exercícios físicos são tarefas que hoje representam dificuldade ou dor. Essas limitações físicas foram centrais para embasar o pedido de pensão vitalícia na ação.

Em primeira instância, o Corinthians já havia sido condenado. O clube recorreu, e o TRT-2 revisou a sentença — mas não da forma que o clube esperava.

O que mudou na decisão de segunda instância

Resumo da condenação

Pensão mensal

R$ 1.800 / mês até os 75 anos

Danos morais

R$ 200.000

Danos materiais

R$ 144.000 (12 salários)

Total estimado

≈ R$ 2,5 milhões

A principal alteração em relação à sentença original foi no modelo da pensão. Antes, o Corinthians teria de pagar o salário integral do atleta — R$ 12 mil mensais — até que ele completasse 35 anos. O tribunal reduziu o valor mensal para 15% dessa remuneração, chegando a R$ 1.800 por mês. Em contrapartida, ampliou drasticamente o prazo: em vez de ir até os 35 anos, a pensão vai até os 75 anos de Kauê, seguindo a expectativa de vida masculina apontada pela tabela de mortalidade do IBGE. O pagamento deve ser feito em parcela única.

A indenização por danos morais foi aumentada, saindo de R$ 50 mil para R$ 200 mil. E foi acrescentada uma nova condenação: danos materiais equivalentes a 12 meses do salário do atleta, totalizando R$ 144 mil. A justificativa? O clube não havia contratado o seguro obrigatório previsto em lei para atletas profissionais.

Segundo o advogado de Kauê, mesmo com as mudanças nos critérios, o valor total da condenação ficou próximo ao original — em torno de R$ 2,5 milhões.

Corinthians vai recorrer

O caso ainda não está encerrado. O Corinthians informou que pretende levar o processo ao Tribunal Superior do Trabalho, instância máxima da Justiça trabalhista. É um caminho legítimo e esperado, mas que não suspende automaticamente a obrigação de pagamento — especialmente considerando que a condenação já foi mantida em segunda instância.

O clube, vale lembrar, vive um momento financeiro delicado. Em 2026, os salários de abril do elenco e da comissão técnica foram atrasados. A dívida total do Corinthians chega a cifras bilionárias, e novas condenações judiciais — como esta — pressionam ainda mais o caixa já apertado do Parque São Jorge.

O que esse caso revela sobre a gestão de atletas da base

O caso de Kauê Moreira vai além do Corinthians. Ele levanta uma questão que o futebol brasileiro ainda trata com pouca seriedade: o que acontece com os jogadores da base que se lesionam e nunca chegam ao profissional?

Kauê passou cinco anos no Corinthians. Renovou o contrato seis vezes. Nunca estreou no time principal. Quando saiu, em 2024, tinha 24 anos, um joelho comprometido e uma carreira encerrada antes de começar de verdade. A Justiça entendeu que o clube teve responsabilidade direta nisso — e não apenas por um deslize isolado, mas por uma sequência de decisões médicas lentas e omissas documentadas ao longo de anos.

No futebol de base, os atletas têm salários baixos, visibilidade restrita e, muitas vezes, pouco amparo legal na prática. Quando se lesionam gravemente, ficam à mercê da estrutura médica do clube. Se essa estrutura falha, as consequências podem ser irreversíveis. No caso de Kauê, foram.

Processos como esse têm se tornado mais comuns no futebol brasileiro à medida que jogadores e seus advogados entendem melhor seus direitos. A tendência é que clubes passem a investir mais em protocolos médicos e seguros obrigatórios, não apenas por ética, mas pela exposição financeira que o descumprimento gera.

O que vem a seguir

Com o recurso ao TST, o processo deve se estender por mais alguns meses — talvez anos. Mas a tendência da Justiça trabalhista, quando a condenação já foi mantida em segunda instância com documentação médica consistente, é confirmar a sentença. Para Kauê Moreira, que hoje tem 25 anos e vive com as limitações físicas que a lesão deixou, a batalha judicial é também uma questão de dignidade: ter reconhecido que o sonho que cultivou desde a infância foi interrompido por falhas de outros, não por falta de dedicação.

Para o Corinthians, o recado é claro: negligência com atletas da base tem custo — e esse custo, neste caso, vai durar até 2076.

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