
Corinthians é eliminado mais uma vez na Libertadores em noite inacreditável
Corinthians é eliminado pelo Estudiantes na Libertadores após atuação decepcionante e pênalti perdido por Memphis. Veja a repercussão, protestos e coletiva de Marcelo Paz.
Emerson Melo
9/17/2026
Tem jogos que terminam e deixam uma sensação difícil de explicar. Não é apenas tristeza, raiva ou frustração. É aquela mistura de incredulidade com a impressão de que é algo pra testar nosso Corinthianismo, de uma partida sem mérito nenhum à uma chance real de se manter vivo, jogada pelos ares...
Foi essa sensação que ficou depois de Corinthians 0 x 1 Estudiantes, na noite de ontem, pela Libertadores. O empate por 1 a 1 na Argentina dava ao Timão a possibilidade de decidir a
classificação diante de quase 48 mil torcedores na Neo Química Arena. A Fiel fez a parte dela. O time, porém, não.
E talvez seja justamente isso que torne a eliminação tão difícil de engolir.
Corinthians fez uma partida muito abaixo do esperado
O problema não foi simplesmente perder para o Estudiantes. Futebol é assim. O problema foi a maneira como o Corinthians jogou. Em uma partida que valia uma vaga entre os quatro melhores times da América do Sul, o time de Fernando Diniz passou boa parte dos 90 minutos em uma postura extremamente passiva.
Jogando em casa, com quase 48 mil torcedores apoiando, o Corinthians parecia esperar que o Estudiantes tomasse a iniciativa. O time argentino, por sua vez, não teve problema algum em assumir o controle da partida.
O primeiro tempo foi especialmente pobre. O Corinthians praticamente não conseguiu criar oportunidades e terminou os primeiros 45 minutos com pouquíssimas finalizações perigosas. Entre as tentativas que mais chamaram atenção estiveram um chute de longa distância de Carrillo e outro de Kaio César. Muito pouco para uma equipe que precisava fazer valer o fator casa.
Rodrigo Garro teve uma noite apagada. Memphis Depay também. E é importante fazer essa ressalva porque a crítica ao holandês não pode ser resumida ao pênalti desperdiçado no fim da partida. Antes mesmo da cobrança decisiva, Memphis já vinha tendo uma atuação muito abaixo do que se esperava de um dos principais jogadores do elenco.
No segundo tempo, não melhorou. Pelo contrário. O Estudiantes continuou encontrando espaços e controlando boa parte das ações, enquanto o Corinthians tinha dificuldades para transformar posse de bola em oportunidades reais de gol.
O gol do Estudiantes e a reação tardia
A situação ficou ainda pior aos 41 minutos do segundo tempo, quando Alexis Castro marcou para o Estudiantes e colocou os argentinos em vantagem. Naquele momento, parecia que tudo estava acabado.
Restavam poucos minutos para o Corinthians fazer aquilo que não havia conseguido durante praticamente toda a partida: pressionar de verdade.
E aí veio outro questionamento inevitável sobre a atuação do time. Fernando Diniz tentou aumentar o poder ofensivo da equipe depois de sofrer o gol. Não poderia ter feito isso antes? Invés de tentar a vitória simples que daria a classificação, tentar uma reação quando praticamente não havia mais tempo?
É claro que ninguém pode afirmar que uma postura mais agressiva desde o início garantiria a classificação. O Estudiantes poderia ter aproveitado os espaços e feito o gol da mesma forma. Mas a passividade do Corinthians durante boa parte do confronto tornou a necessidade de uma reação no final ainda mais dramática.
Foi somente quando estava perdendo e com poucos minutos restantes que o time passou a colocar mais jogadores no ataque.
E, mesmo assim, sem fazer por onde na maioria da partida, o time foi presenteado com uma grande oportunidade (E QUE OPORTUNIDADE!).
Quando o torcedor já parecia conformado com a eliminação, o Corinthians conseguiu um pênalti nos minutos finais. A oportunidade de empatar a partida e levar a decisão para as cobranças.
A responsabilidade ficou com Memphis Depay. O mesmo jogador contratado para ser protagonista em momentos importantes.
A bola, porém, foi para fora.
Fim de jogo. Estudiantes classificado. Corinthians eliminado.
O pênalti perdido naturalmente se tornou o grande símbolo da noite, mas colocar toda a eliminação nas costas de Memphis seria simplificar demais o que aconteceu dentro de campo.
No dia seguinte, Marcelo Paz seguiu justamente essa linha. O executivo de futebol afirmou que Memphis reconheceu que deveria ter convertido a cobrança, mas defendeu que a responsabilidade pela eliminação não poderia ser individualizada. Segundo Paz, quando o Corinthians ganha, todos ganham; quando perde, todos perdem.
E esse talvez seja o ponto principal. O Corinthians não foi eliminado porque Memphis perdeu um pênalti. O Corinthians foi eliminado porque jogou muito pouco durante praticamente toda a partida e, quando finalmente precisou reagir, já estava correndo contra o relógio. (Na verdade essa eliminação também é um reflexo de toda a bagunça administrativa do clube mas isso é assunto pra outro texto...)
A torcida fez sua parte, mas deixou a Arena decepcionada
Outro fator que aumenta a frustração é o tamanho do apoio que veio das arquibancadas. Foram 47.549 torcedores na Neo Química Arena, empurrando o Corinthians durante a decisão.
A torcida cantou, apoiou e fez o que se espera da Fiel em uma noite de Libertadores. Mesmo quando o futebol apresentado em campo não correspondia à atmosfera criada nas arquibancadas, o apoio continuou.
Não era necessário que o Corinthians necessariamente fosse campeão da Libertadores. Muito menos que apresentasse um futebol perfeito. Mas era esperado que aquela equipe entrasse em campo sabendo o tamanho da oportunidade que tinha nas mãos.
Era uma vaga na semifinal. Era um jogo em casa. Era a Neo Química Arena lotada. E, durante boa parte dos 90 minutos, parecia que somente a torcida havia entendido a importância daquela noite. Hoje postei um vídeo da preleção antes da final da Supercopa em Janeiro, quase o mesmo elenco, uma raça em campo que igualou o time reconhecidamente superior do Flamengo, o que mudou no espírito desses jogadores pra fazer uma partida tão pífia?
O dia seguinte foi de protestos no Corinthians
A eliminação não terminou quando o árbitro apitou o fim da partida. Na quinta-feira, o clima continuou pesado no Corinthians.
Os muros do Parque São Jorge foram pichados com mensagens de protesto, e Memphis Depay acabou sendo um dos principais alvos. Frases como “Fora Memphis” e “salário de milhões, futebol de centavos” apareceram nas manifestações.
A revolta, porém, não ficou restrita ao atacante.
A Gaviões da Fiel também publicou uma nota após a eliminação cobrando o elenco, Memphis, Rodrigo Garro, Fernando Diniz, a comissão técnica e a diretoria. A principal organizada do Corinthians deixou claro que, em sua avaliação, o problema não poderia ser resumido ao pênalti perdido no último lance.
A cobrança sobre Memphis esteve presente, especialmente pela importância do jogador e pelo investimento realizado pelo clube, mas a manifestação também criticou a postura de outros atletas e fez cobranças à direção e aos conselheiros.
Ou seja, embora o holandês tenha se tornado o rosto mais evidente da eliminação, a insatisfação da torcida é muito maior e envolve o conjunto do futebol corintiano.
Marcelo Paz mantém confiança em Fernando Diniz
Outro assunto que ganhou força no dia seguinte foi o futuro de Fernando Diniz.
Depois da eliminação, naturalmente surgiram questionamentos sobre a permanência do treinador. Marcelo Paz, entretanto, tratou de deixar clara a posição da diretoria: neste momento, uma mudança no comando técnico não está nos planos do clube.
Em coletiva no CT Joaquim Grava, o executivo afirmou que o presidente Osmar Stabile esteve no centro de treinamento e reforçou internamente a confiança no trabalho de Diniz. A orientação, segundo Paz, é manter a união e tentar recuperar o Corinthians no Campeonato Brasileiro.
A situação, entretanto, é delicada. Eliminado da Copa do Brasil e agora também da Libertadores, o Corinthians tem apenas o Brasileirão pela frente até o final da temporada. E a campanha nacional também não oferece tranquilidade ao torcedor.
O Timão está na parte de baixo da tabela e vem de uma sequência ruim de resultados. Com a eliminação continental, toda a pressão agora se concentra no campeonato nacional.
Antes, o Campeonato Brasileiro era uma competição importante paralelamente à Libertadores. Agora, é a única competição que restou ao Corinthians na temporada.
O próximo compromisso será novamente na Neo Química Arena, contra o Fluminense. A torcida que lotou o estádio para uma decisão continental terá de voltar a apoiar o time em uma competição que passou a ser o único objetivo possível até o fim do ano.
Só que, depois da atuação contra o Estudiantes, a cobrança será ainda maior.
O Corinthians precisa encontrar respostas rapidamente. Diniz terá de fazer o time produzir mais. Os jogadores precisarão assumir responsabilidades dentro de campo e a diretoria terá de lidar com uma pressão que certamente não vai desaparecer depois da eliminação.
Uma eliminação que dói mais pela falta de "Corinthianismo"
Cair na Libertadores é uma rotina que incomoda o torcedor corinthiano, mas muitas vezes não é apenas sobre cair mas sim como se cai...
Se o Corinthians tivesse entrado em campo, lutado durante os 90 minutos, criado oportunidades e sido eliminado por um gol no final, a dor seria enorme. Mas seria uma dor diferente.
O que ficou depois de Corinthians x Estudiantes foi a sensação de uma oportunidade desperdiçada por falta de empenho dos jogadores.
O time tinha empatado na Argentina. Tinha a vantagem de decidir em casa. Tinha a torcida. Tinha uma última chance de levar a decisão aos pênaltis. E passou boa parte do jogo vendo o Estudiantes tomar conta da partida.
É claro que futebol não é justo o tempo inteiro. Muitas vezes um time joga mal e ganha. Se o Corinthians tivesse empatado o jogo no último lance e depois avançado nos pênaltis, ninguém estaria preocupado em perguntar se mereceu ou não. Torcedor quer passar.
Eu também queria.
Mesmo jogando mal. Mesmo sem merecer.
Porque Libertadores é assim. Muitas vezes é preciso ganhar na força da camisa, no grito da torcida, em um lance individual ou simplesmente aproveitar a oportunidade que aparece.
Mas o Corinthians não conseguiu.
Agora sobra a frustração, a cobrança e a necessidade de encontrar algum caminho para o restante da temporada.
Memphis terá de lidar com o peso daquele pênalti. Diniz terá de encontrar respostas para um time que vem produzindo pouco. A diretoria terá de explicar suas decisões. E os jogadores terão de mostrar em campo que ainda existe reação possível.
A Libertadores acabou. A Copa do Brasil também.
Agora é Brasileirão.
E, depois de uma noite como a de quarta-feira, o torcedor corintiano tem todo o direito de estar indignado.
Mas, apesar de tudo, vai Corinthians. Sempre.

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