Corinthians é eliminado pelo Flamengo, resta a amargura de um jogo que poderia ter sido diferente

Corinthians não jogou bem, desperdiçou as poucas chances que criou e viu o Fla se defender com um a menos pelo tempo que interessava. Daronco foi complacente com a cera. E a Globo fez o que a Globo faz

Emerson Melo

6/20/2025

Às vezes não tem análise sofisticada. O Corinthians não jogou bem, o Flamengo se defendeu com dez e segurou, e a gente vai para casa sem a Copa do Brasil. É ruim. Mas os outros campeonatos continuam — e é melhor falar logo o que tem para falar.

Existe uma expressão em inglês que diz "eat the frog first" — come o sapo logo cedo. A ideia é simples: quando você tem algo ruim pela frente, enfrenta primeiro, resolve e segue em frente. Este artigo é o sapo. O Corinthians foi eliminado pelo

Flamengo na semifinal da Copa do Brasil. Dói. Mas ficamos aqui até o fim e agora é hora de falar o que tem para falar, guardar o que foi bom e virar a página para o Brasileirão e a Sul-Americana.

O jogo que não saiu — e a dúvida cruel sobre o mérito do adversário

Tem uma dúvida que fica depois deste jogo e que é difícil de responder com honestidade: o quanto a eliminação foi mérito do Flamengo de Felipe Luiz em se reorganizar depois da expulsão de Bruno Henrique — e o quanto foi incapacidade do Corinthians de furar uma defesa numericamente inferior?

Porque os dois fatores existiram. O Flamengo com dez homens se postou de forma compacta, coletiva, sem dar espaços — e o Corinthians não encontrou o caminho para superar aquela barreira. Ficou insistindo em cruzamentos na área, o que é exatamente o que um time com superioridade numérica não deveria fazer contra uma zaga organizada. Cruzamento é a jogada que mais favorece a defesa adversária quando ela está no modo de resistência. A alternativa seria o que o Corinthians fez contra o Athletico-PR naquele golaço em tabelas e toque rápido dentro da área — entrar em velocidade, criar espaços antes de cruzar, não cruzar para deixar o zagueiro cabecear. Mas no calor do momento, com a pressão da eliminação, é mais fácil falar do que executar.

Garro sumiu — e isso é a coisa mais preocupante da noite

Tem jogos em que o craque some — e quando ele some, o time perde metade da sua identidade. Rodrigo Garro teve uma das piores atuações desde que chegou ao Corinthians. Errou passes que não costuma errar, perdeu bolas em situações desnecessárias, não conseguiu encontrar o ritmo de jogo que normalmente dita. Foi uma tarde muito abaixo do que a gente está acostumado a ver do argentino.

Não é crítica gratuita — é exatamente porque a gente confia tanto no Garro que dói ver uma atuação assim em jogo de semifinal. O nível de dependência que o Corinthians tem do camisa 8 é real, e quando ele não aparece, o time inteiro sente. Igor Coronado entrou no segundo tempo e para mim deveria ter entrado antes — foi o mais lúcido em campo, tentando criar com mais objetividade.

As atuações individuais — o que funcionou e o que não funcionou

Talles Magno foi outro que ficou abaixo do esperado. O atacante estava voltando de um período sem ritmo e pareceu exatamente assim — sem a velocidade de reação e a frequência de dribles que o caracteriza. A gente sabe que ele tem qualidade, que é um jogador que pode desequilibrar, mas neste jogo simplesmente não conseguiu fazer isso acontecer.

Yuri Alberto teve um chute perigoso que o goleiro do Flamengo defendeu muito bem — talvez o momento mais perto de um gol que o Corinthians chegou na partida. Mas também não produziu o suficiente no conjunto. Muitos contra-ataques que terminaram em passes errados — às vezes por ansiedade, às vezes por imprecisão —, o que é especialmente frustrante quando você está tentando marcar o gol que daria a vaga.

O destaque positivo, curiosamente, foi Geovani. Entrou bem, conseguiu fazer uma jogada individual em que chutou no gol, e no finalzinho ainda cruzou uma bola na área para o Romero — que, se estivesse mais ligado no lance e antecipado o movimento, poderia ter aproveitado. É aquele tipo de contribuição que um jogador recém-entrado nem sempre tem condições de dar, mas Geovani deu.

Hugo Souza praticamente não precisou trabalhar. O Flamengo se organizou tão bem na defesa que raramente ameaçou o gol corintiano de forma real — o que, de certa forma, ilustra ainda mais a frustração do Timão em não ter conseguido furar aquela barreira.

Daronco e a cera que não foi punida

Não tem polêmica de lance específico neste jogo — não houve gol anulado indevidamente, não houve pênalti não marcado gritante. Mas tem uma questão que precisa ser dita: Daronco foi bastante complacente com a enrolação do goleiro do Flamengo nos tiros de meta.

Em várias situações seguidas, o goleiro demorou muito mais do que o permitido para colocar a bola em jogo — e o árbitro simplesmente deixou passar. Quando um time está com um a menos e precisa que o relógio corra, cada segundo de cera é tão valioso quanto um gol. E o árbitro, que poderia ter compensado esse tempo nos acréscimos de forma mais generosa, não o fez.

É o tipo de coisa que não muda o resultado — o Corinthians precisava marcar independentemente do tempo que sobrasse. Mas é o tipo de coisa que irrita quem está torcendo pelo time que tentava buscar o placar.

A Globo e o volume da torcida do Flamengo — o truque de sempre

Uma observação que não tem nada de paranoica: ao longo da transmissão, era possível notar que o áudio da torcida do Flamengo estava sendo captado de forma mais destacada, criando a impressão de que o barulho rubro-negro era dominante no estádio. Quem assistiu viu que a torcida do Corinthians fez sua parte até o apito final — mas a forma como o áudio foi trabalhado na transmissão passava uma mensagem diferente.

É um vício antigo da Globo — não é novidade e não é surpresa. Mas vale registrar, porque é exatamente esse tipo de coisa que faz muita gente preferir assistir pelo streaming, mesmo com o atraso de 20 ou 30 segundos que faz o vizinho gritando gol antes de você ver o lance na tela. Quando a transmissão em tempo real dos streamings finalmente resolver esse problema de latência, a TV aberta vai sentir saudade da audiência que perdeu.

O que fica — e o que vem pela frente

É ruim. Semifinal de Copa do Brasil era uma chance real de título, de receita importante, de moral para o elenco. Sair aqui dói.

Mas o contexto merece ser lembrado: o Corinthians chegou à semifinal de uma Copa do Brasil enquanto brigava na parte de baixo do Brasileirão e disputava Libertadores ao mesmo tempo. Não é pouca coisa. O time tratou as copas com certa naturalidade — às vezes até com menos pressão do que o campeonato —, e avançou até aqui mesmo assim.

Agora o foco muda. Brasileirão e Sul-Americana são as duas frentes que ficam, e em ambas o Corinthians tem trabalho pela frente. No campeonato nacional, a prioridade é se afastar definitivamente da zona de rebaixamento e construir uma segunda metade de temporada que justifique o trabalho de Diniz. Na Sul-Americana, cada jogo é eliminatório e o Timão ainda tem condições de ir longe.

O sapo foi engolido. Agora segue.

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