
Corinthians x Boca 2013: Mais um ano do maior roubo da história contra o Corinthians
No dia 15 de maio de 2013, Carlos Amarilla apitou o jogo entre Corinthians x Boca Juniors no Pacaembu. Dois gols anulados, dois pênaltis ignorados, um gol sofrido de impedimento — e dois anos depois, uma escuta que transformou suspeita em escândalo conhecido como AmarillaDay
Emerson Melo
5/16/2026
O Corinthians era campeão do mundo. Havia vencido a Libertadores no ano anterior. Entrou em campo no Pacaembu precisando de uma vitória — e jogou bem o suficiente para conseguir. Só que não era um jogo de futebol. Era um teatro. E Carlos Amarilla era o diretor.
Mais um ano desde aquela quarta-feira de maio de 2013. A data ficou marcada no calendário da torcida corintiana com um nome que mistura ironia e raiva: #AmarillaDay.
O jogo entre Corinthians e Boca Juniors, pelas oitavas de final da Libertadores, disputado no estádio do Pacaembu em São Paulo, é até hoje considerado um dos episódios mais escandalosos da história da arbitragem sul-americana — e a sequência de revelações que vieram depois só aprofundou a ferida.
O contexto: um time pronto para o bicampeonato
Para entender o peso daquele jogo, é preciso lembrar do que era o Corinthians em 2013. O clube havia conquistado a Libertadores em 2012 — encerrando um jejum histórico — e vencido o Mundial de Clubes meses depois, derrotando o Chelsea na final. Era um elenco consolidado, respeitado, com Tite no comando e jogadores como Paulinho, Cássio, Sheik, Paolo Guerrero... Uma base que havia conquistado tudo junto.
Para a temporada seguinte, o clube investiu pesado. Contratou Alexandre Pato por R$ 40 milhões — o maior investimento do clube até então. A fase de grupos da Libertadores confirmou o favoritismo: o Timão terminou como líder do Grupo 5, com 13 pontos, a quarta melhor campanha geral e a defesa menos vazada da fase. O rival nas oitavas? O próprio Boca Juniors, que havia sido derrotado na final da edição anterior. O encontro tinha tudo para ser épico.
O jogo de ida, na Bombonera, terminou 1 a 0 para o Boca. Um resultado difícil, mas administrável. O Corinthians precisava vencer por dois gols de diferença no Pacaembu — ou conseguir uma vitória simples para levar aos pênaltis. A missão era possível. O estádio estava cheio. O time estava pronto.
Carlos Amarilla, árbitro paraguaio, estava escalado para apitar a partida.
Lance a lance: como Amarilla desmontou o Corinthians
O roteiro dos erros começou cedo. Logo no início do jogo, o jogador Marín — que já havia recebido cartão amarelo por cera excessiva em uma cobrança de lateral — colocou a mão na bola dentro da área do Boca Juniors. Pênalti claro, sem margem para interpretação. Amarilla não só ignorou o lance como foi além: deu cartão amarelo para Sheik, que havia pedido a marcação da penalidade com indignação. Protesto punido, pênalti não marcado.
Minutos depois, aos 23 do primeiro tempo, Romarinho chegou à bola em posição completamente legal e marcou. Amarilla anulou, sinalizando impedimento inexistente. O gol não existiu.
Ainda no primeiro tempo, o Boca marcou com Riquelme — e o gol foi precedido de uma falta clara sobre jogador corintiano que também não foi marcada. O placar virou 1 a 0 para os argentinos no Pacaembu, e o Corinthians passou a precisar de três gols para avançar no tempo normal.
No segundo tempo, Tite mexeu na equipe. O Corinthians voltou com mais intensidade e, aos cinco minutos, Paulinho marcou. 1 a 1. O Pacaembu explodiu. A missão ficou viva — precisava de mais um gol para levar aos pênaltis, ou dois para avançar diretamente.
E então veio o segundo gol de Paulinho. Legal, limpo, sem contestação razoável. Amarilla anulou alegando falta do volante no goleiro Orión. O árbitro ainda deu cartão amarelo para Paulinho pela comemoração. Dois gols anulados, dois pênaltis ignorados — e para fechar, Sheik foi derrubado na área no fim do jogo. Amarilla deixou o lance passar.
O jogo terminou 1 a 1. O Corinthians foi eliminado.
Os erros de Amarilla no Pacaembu — 15/05/2013
✗ Pênalti de Marín (mão na bola) não marcado — ainda deu amarelo para Sheik por reclamar
✗ Gol de Romarinho anulado por impedimento inexistente (1°T)
✗ Gol do Boca com Riquelme — falta não marcada no lance anterior
✗ Segundo gol de Paulinho anulado por suposta falta no goleiro (2°T)
✗ Pênalti em Sheik na reta final — ignorado
A reação: do vestiário às redes sociais
Tite, que hoje é sinônimo de compostura e equilíbrio, deixou a máscara cair naquela noite. Segundo relatos de jogadores, o treinador bufava de raiva no vestiário depois do jogo — mas, fiel ao seu estilo, não fez declarações agressivas publicamente. Quem falou sem filtro foi o meia Douglas, em entrevista ao podcast Podpah anos depois: "foi assaltado, a coisa mais feia do mundo. Dá vontade de sentar a mão, mas aí você nunca mais joga, né? Roubou, garfou lindo."
Nas redes sociais, a torcida corintiana criou o termo #AmarillaDay, que viralizou no Brasil e chamou atenção internacional. A indignação era unânime — não apenas entre corintianos, mas entre jornalistas e torcedores de outros clubes que assistiram ao jogo e reconheceram a absurdidade do que havia acontecido. O Corinthians era o campeão do mundo sendo eliminado por uma arbitragem que não deixava dúvidas sobre para qual lado estava inclinada.
Dois anos depois: a escuta que confirmou as suspeitas
Se o jogo em si já era suficiente para alimentar teorias, o que veio dois anos depois transformou suspeita em escândalo documentado. Em 2015, a emissora argentina América divulgou escutas telefônicas nas quais Julio Grondona — presidente por décadas da Associação do Futebol Argentino e um dos homens mais poderosos do futebol sul-americano — referia-se a Carlos Amarilla como "o grande reforço do Boca" antes da partida.
A frase é devastadora em seu significado. O presidente da entidade máxima do futebol argentino, em conversa gravada, chamando o árbitro paraguaio escalado para apitar um jogo do Boca Juniors de "reforço" do clube. Não há interpretação favorável possível para essa expressão.
A repercussão foi imediata. A AFA afastou Amarilla de todos os campeonatos organizados pela entidade e anunciou investigação. Em comunicado oficial, informou que o árbitro ficaria sem atividade até a apuração da veracidade do material. O problema é que a investigação durou pouco: semanas depois, Amarilla retornou à arbitragem. Encerrou a carreira normalmente em 2017. Nenhuma punição efetiva foi aplicada.
Grondona morreu em 2014, um ano antes de as escutas virem à tona — e portanto jamais respondeu pelas afirmações gravadas.
Um histórico que não era coincidência
O jogo de 2013 não foi a única vez que o Corinthians cruzou o caminho de Amarilla em circunstâncias problemáticas. Torcedores que pesquisaram o histórico do árbitro descobriram que ele também havia apitado uma partida entre River Plate e Corinthians em Buenos Aires — na qual o time brasileiro foi prejudicado por uma expulsão polêmica e um gol irregular do River. O árbitro daquele jogo? Carlos Amarilla.
Coincidência ou padrão, a pergunta ficou no ar. O que se sabe é que, nos jogos em que o árbitro paraguaio esteve presente em confrontos envolvendo o Corinthians contra times argentinos, o desfecho foi sempre desfavorável ao clube brasileiro — e sempre com erros que pesaram decisivamente no resultado.
O que aconteceu com Amarilla depois
Carlos Amarilla encerrou a carreira de árbitro em 2017. Hoje, aos 51 anos, vive na cidade de Ñemby, na Grande Assunção, no Paraguai, onde trabalha como personal trainer e divulga seu trabalho em redes sociais. Em sua página, publica fotos exibindo os resultados da academia, aparentemente alheio — ou indiferente — ao legado que deixou no futebol sul-americano.
Nenhuma investigação oficial chegou a uma conclusão pública. Nenhuma punição foi aplicada. O Corinthians nunca recebeu qualquer reconhecimento ou reparação pela eliminação. A Conmebol, que poderia ter conduzido uma apuração independente, permaneceu em silêncio.
A vingança que veio — mas não apagou a cicatriz
Em 2022, o Corinthians voltou a enfrentar o Boca Juniors na Libertadores, nas oitavas de final. O jogo de volta foi na Bombonera — e o Timão venceu nos pênaltis por 6 a 5, com Cássio defendendo duas cobranças e Benedetto desperdiçando outra. A torcida celebrou como redenção. E era mesmo.
Mas nenhuma vitória posterior apaga o que foi 15 de maio de 2013. Aquele Corinthians tinha elenco, tinha história, tinha Tite, tinha Paulinho em seu melhor momento, tinha a Fiel em peso no Pacaembu. E foi eliminado não pelo Boca Juniors — foi eliminado por um árbitro que, segundo o presidente da federação argentina gravado em escuta, era o "grande reforço" do rival.
Anos depois, o #AmarillaDay continua sendo lembrado. Não por nostalgia, mas porque algumas injustiças não prescrevem — e porque o futebol ainda não tem mecanismo suficiente para responsabilizar quem destrói sonhos com um apito.

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