
EUA sancionam empresário ligado ao caso Vai de Bet por lavagem de dinheiro do PCC
Fica a cada vez mais claro que Augusto Melo nunca poderia ter aceitado esse contrato. Victor Shimada, alvo do Tesouro norte-americano por lavar mais de US$ 30 milhões para O pcc. Mais um capítulo de uma história que envergonha o clube
Emerson Melo
7/2/2026
A cada nova revelação sobre o caso Vai de Bet, fica mais difícil entender como aquele contrato foi assinado. Agora os Estados Unidos sancionaram um empresário brasileiro com conexões nas investigações do esquema — e o elo com o PCC saiu do Brasil para ganhar dimensão internacional.
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou nesta quarta-feira, 1º de julho, sanções contra o empresário brasileiro Victor Henrique de Oliveira Shimada
por suspeita de integrar uma rede de lavagem de dinheiro ligada ao Primeiro Comando da Capital — o PCC. Segundo as autoridades norte-americanas, Shimada atuava como "elo-chave" entre integrantes da facção na Flórida e traficantes internacionais, tendo lavado mais de US$ 30 milhões em recursos ilícitos com uso de criptomoedas.
O que conecta tudo isso ao Corinthians?
A empresa de Shimada, a Victory Trading, foi citada nas investigações brasileiras sobre o caso Vai de Bet — o mesmo escândalo que levou ao impeachment de Augusto Melo, ao indiciamento do ex-presidente por lavagem de dinheiro e à expulsão dele do quadro associativo do clube. Mais um capítulo de uma história que, a cada nova revelação, só aprofunda a pergunta que não quer calar: como esse contrato foi assinado?
Quem é Victor Shimada e o que ele tem a ver com o Corinthians
Victor Henrique de Oliveira Shimada não é um nome que apareceu ontem nas investigações. No Brasil, ele já havia sido denunciado pelo Ministério Público de São Paulo em julho de 2025 por lavagem de dinheiro no caso Vai de Bet. A apuração investiga o fluxo de recursos do contrato de patrocínio entre o Corinthians e a casa de apostas, anunciado em janeiro de 2024 — um acordo de R$ 360 milhões que se tornaria o maior escândalo da história recente do clube.
Segundo a Polícia Civil, a Victory Trading — empresa de Shimada — funcionava como uma "conta de passagem" dentro da movimentação financeira investigada. Em termos práticos: a empresa recebia recursos de outras companhias ligadas ao fluxo de dinheiro sob apuração e redistribuía valores de forma a dificultar o rastreamento da origem. É exatamente o tipo de estrutura que caracteriza operações de lavagem de dinheiro.
A investigação também aponta conexões entre a Victory Trading, a Wave Intermediações e a UJ Football Talent. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, a empresa de Shimada recebeu R$ 13 milhões no esquema investigado e repassou R$ 200 mil à UJ Football — empresa que também foi mencionada na delação de Antonio Vinicius Lopes Gritzbach, o delator assassinado no Aeroporto de Guarulhos em 2024.
A teia de conexões investigadas
●Vai de Bet — casa de apostas que firmou contrato de R$ 360 mi com o Corinthians em jan/2024; rescindiu após o escândalo
●Rede Media Social Ltda — empresa intermediadora que recebia 7% de cada parcela; investigada como empresa fantasma
●Victory Trading (Shimada) — recebeu R$ 13 mi no esquema; usada como "conta de passagem"
●Wave Intermediações e UJ Football Talent — citadas nas conexões investigadas; UJ Football mencionada na delação de Gritzbach
●PCC — investigações brasileiras e agora americanas apontam possível envolvimento da facção no fluxo de recursos
O que os EUA dizem — e o que isso muda
As sanções do Departamento do Tesouro americano têm um peso diferente das investigações brasileiras. Quando os Estados Unidos classificam alguém como parte de uma rede de lavagem de dinheiro para o PCC — especialmente depois de o governo Trump ter classificado o PCC como organização terrorista internacional em junho de 2026 — o nível de escrutínio e as consequências são de outra magnitude.
Com as sanções, todos os bens e interesses de Shimada e das empresas listadas que estejam nos EUA ou sob controle de pessoas norte-americanas ficam bloqueados. Transações com esses alvos passam a ser proibidas. É uma punição com consequências financeiras e reputacionais severas — e que coloca o caso Vai de Bet numa dimensão que vai muito além do futebol brasileiro.
É importante registrar o que o Tesouro americano afirma: que a Victory Trading foi usada para lavar dinheiro desviado de um clube de futebol brasileiro. O documento não cita o Corinthians nominalmente. E o promotor Lincoln Gakiya, do MP-SP, afirmou à BBC News Brasil que não há informação de que Shimada integre o PCC no Brasil. As investigações estabelecem conexões — não condenações. Augusto Melo nega todas as acusações.
Mas a questão que fica não é jurídica. É de bom senso.
Augusto Melo nunca poderia ter aceitado esse contrato
Vamos recapitular o que já se sabia antes desta nova revelação. Em janeiro de 2024, o Corinthians anunciou um contrato de patrocínio com a Vai de Bet no valor de R$ 360 milhões — o maior da história do clube até então. O acordo previa que 7% do valor líquido de cada parcela fossem repassados a uma empresa intermediadora. Essa empresa, a Rede Media Social Ltda, foi investigada como parte de uma rede de empresas fantasmas criadas para desviar recursos.
Em maio de 2024, a Vai de Bet rescindiu o contrato unilateralmente. Em junho, veio o escândalo público. Em julho de 2025, Augusto Melo tornou-se réu por associação criminosa, lavagem de dinheiro e furto qualificado pelo abuso de confiança. Em agosto, o impeachment foi referendado. Em junho de 2026, ele foi expulso do quadro associativo do clube por 147 votos a 5.
E agora, em julho de 2026, os Estados Unidos sancionam um empresário com conexões investigadas nesse mesmo fluxo de dinheiro por lavagem para o PCC.
A pergunta não é se Augusto Melo sabia de tudo. A pergunta é: como um presidente de clube assina um contrato de R$ 360 milhões com uma empresa que paga 7% do valor a uma intermediadora sem fazer as perguntas mínimas sobre quem é essa intermediadora, de onde vem o dinheiro e para onde vai? Que tipo de due diligence foi feita antes de colocar o escudo do maior clube do Brasil nesse negócio?
O dano que vai além da gestão que acabou
Augusto Melo foi expulso. O caso está na Justiça. Em tese, o capítulo foi encerrado institucionalmente. Mas o dano que o caso Vai de Bet causou ao Corinthians não some com uma votação.
O nome do clube mais popular do país aparece agora em documentos do Tesouro dos Estados Unidos, em investigações do Ministério Público sobre lavagem de dinheiro, em delações sobre o PCC, em sanções internacionais. Não como vítima apenas — mas como parte de um ambiente em que tudo isso foi possível porque um presidente assinou um contrato que nunca deveria ter sido assinado.
A Fiel merecia mais. O Corinthians merecia mais. E cada nova revelação sobre o caso Vai de Bet é mais um lembrete de que a limpeza feita pelo Conselho Deliberativo nas últimas semanas — com a expulsão de Andrés Sanchez, a renúncia de Duilio e a expulsão de Augusto Melo — foi necessária, urgente e ainda pode não ser suficiente.
Porque enquanto as investigações seguirem apontando novas conexões, novos nomes e novas empresas ligadas ao fluxo de dinheiro daquele contrato, o caso Vai de Bet não vai acabar. E o Corinthians vai continuar tendo que conviver com as consequências de uma decisão que nunca deveria ter sido tomada.


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