Flamengo faz jogo duro na venda de Hugo Souza, presidente do Cuiabá fala demais

O Flamengo não aceita garantia bancária e quer mais R$ 500 mil antes de vender o goleiro. O presidente do Cuiabá chama o Timão de golpista. E tem um detalhe irônico: o Cuiabá deve pro Corinthians há dois anos

Emerson Melo

2/17/2025

O Flamengo percebeu tarde demais que deixou escapar um goleiro de elite. Agora tenta compensar fazendo jogo duro na negociação. O Cuiabá quer aparecer xingando o Corinthians. E no meio de tudo isso, o Hugo Souza continua fazendo milagre sob as traves — inclusive contra o próprio Flamengo.

Duas histórias diferentes, um denominador comum: o Corinthians sendo alvo de críticas e jogo duro de quem também não está sem pecado. De um lado, o Flamengo tentando

tirar mais dinheiro numa negociação que já deu muito mais retorno ao Corinthians do que qualquer um esperava. Do outro, o presidente do Cuiabá dando entrevista chamando o Timão de golpista — enquanto o próprio clube mato-grossense deve dinheiro ao Corinthians há dois anos. Vamos por partes.

Hugo Souza: o goleiro que ninguém esperava — nem o Flamengo

Quando o nome de Hugo Souza começou a circular como possível reforço do Corinthians, a recepção não foi das melhores. Muita gente preferia outros nomes. A história era conhecida: goleiro revelado pelo Flamengo, alçado ao profissional muito jovem sem ter maturidade para lidar com a pressão, cometeu erros dentro e fora de campo, foi emprestado para o Chaves, em Portugal, clube que amargou rebaixamento para a segunda divisão. Não era exatamente o currículo que animava.

O que aconteceu depois disso dispensou apresentações. Hugo Souza chegou ao Corinthians e tomou conta do gol de um jeito que o clube não via há muito tempo. Defesas incríveis, saídas de bola, liderança, personalidade. O goleiro que foi "escorraçado" do Flamengo virou um dos melhores da posição no Brasil — e fez o Corinthians não sentir falta de ninguém que veio antes dele (nem do gigante Cássio, o que parecia improvável).

Aí vem o detalhe irônico: o Flamengo percebeu isso. E agora tenta dificultar ao máximo a compra definitiva do jogador pelo Corinthians.

O jogo duro do Flamengo — e os R$ 500 mil que estão no meio

A intenção do Corinthians era fechar a compra definitiva de Hugo Souza antes do próximo compromisso entre os dois times, evitando o pagamento de mais uma parcela de empréstimo — no valor de aproximadamente R$ 500 mil. Para isso, o clube tentou oferecer como garantia bancária um aval da Brax, empresa que justamente patrocina o Flamengo com suas placas de publicidade.

O Flamengo não aceitou. Recusou a garantia bancária e manteve a posição de que quer o dinheiro de outra forma. O resultado prático é que o Corinthians terá de pagar mais essa parcela — e Hugo Souza seguirá como emprestado no jogo contra o próprio Flamengo.

Pensa no tamanho da situação: o Hugo Souza pode classificar o Corinthians contra o Flamengo. Um goleiro da base do Rubro-Negro, emprestado ao rival, fazendo milagres para eliminar o clube que o revelou. No primeiro jogo entre as equipes, só não saiu uma goleada sobre o Corinthians porque Hugo fechou o gol de forma extraordinária. Uma vitória simples do Timão no jogo da volta leva tudo para os pênaltis — e quem estará na meta? Hugo Souza. O Flamengo está arriscando ser eliminado pelo próprio goleiro enquanto tenta arrancar mais meio milhão na negociação.

É picuinha disfarçada de estratégia financeira. O Flamengo sabe que vendeu barato — ou melhor, que emprestou barato quem virou uma das principais peças do rival. Agora tenta compensar nos detalhes da negociação o que não pode mais compensar em campo.

Olhando o quadro geral, o Corinthians está prestes a comprar em definitivo um dos melhores goleiros do Brasil por cerca de R$ 7 milhões no total — somando todas as parcelas de empréstimo e o valor da compra. Num mercado onde um goleiro mediano de Brasileirão custa muito mais do que isso, a operação Hugo Souza é, objetivamente, um dos melhores negócios que o clube fez nos últimos anos.

Se o Corinthians não estivesse numa situação financeira tão delicada, a resposta seria simples: paga os R$ 6 milhões à vista, encerra a novela antes do jogo de domingo e o Hugo entra em campo já como jogador comprado. Mas a realidade é o que é — e o clube que tem potencial para ser o Real Madrid das Américas ainda patina por conta de anos de gestão irresponsável que deixaram uma herança impagável.

A esperança é que a nova gestão, comandada por Fred Luz, consiga colocar as contas no lugar. Porque um Corinthians financeiramente saudável não passaria por constrangimento nenhum nessa negociação. Pagaria à vista, agradecia e seguia em frente.

O presidente do Cuiabá e o teto de vidro

Agora o segundo capítulo — e talvez o mais irônico. O presidente do Cuiabá concedeu uma entrevista chamando o Corinthians de clube que está "dando um golpe no futebol brasileiro" por causa de dívidas. O nome do Corinthians no meio de qualquer história ganha uma proporção dez vezes maior do que deveria — e o dirigente mato-grossense claramente sabia disso quando resolveu falar.

Cobrar uma dívida é legítimo. O departamento jurídico do Cuiabá tem todo o direito de notificar o Corinthians, acionar os mecanismos legais e exigir o pagamento dentro dos prazos previstos. Isso é o que qualquer clube faria — e faz. Mas dar entrevista falando em "golpe no futebol brasileiro" como se o Corinthians fosse o único clube do Brasil que deve dinheiro é outra conversa.

Praticamente todos os clubes brasileiros têm dívidas. A diferença está no tamanho e na capacidade de pagar — não na existência ou não do débito. Usar o nome do Corinthians para aparecer na mídia nacional é uma estratégia conhecida, e o presidente do Cuiabá não é o primeiro nem será o último a usá-la.

Mas tem um detalhe que torna a situação especialmente constrangedora para o dirigente cuiabano: o Cuiabá deve dinheiro ao Corinthians. Há mais de dois anos, o clube mato-grossense não quitou uma dívida relacionada ao Walter — goleiro que saiu do Corinthians para o Cuiabá e cujos direitos geraram uma pendência financeira que, até hoje, não foi resolvida.

Dívida é dívida. Não importa se o valor é menor do que o que o Corinthians deve ao Cuiabá. Quem critica a inadimplência alheia enquanto mantém a própria dívida em aberto perde a autoridade moral do argumento antes mesmo de terminar a frase.

O problema real: anos de gestão irresponsável

Por trás das duas histórias — o jogo duro do Flamengo e a alfinetada do Cuiabá — existe um denominador comum que o torcedor corintiano conhece bem: as consequências de anos de gestões que empurraram dívidas para frente sem resolução.

Não é exagero dizer que o Corinthians, com sua base de torcedores, sua localização em São Paulo — a maior economia do Brasil — e seu potencial de arrecadação, deveria ser financeiramente um dos clubes mais sólidos do continente. Rivais de outros times reconhecem isso. O próprio Denilson, palmeirense, já disse publicamente que torce para o Corinthians continuar na bagunça financeira — porque sabe que um Corinthians com as contas em dia é imbatível.

A nova gestão de Fred Luz herdou uma dívida que muitos chamam de impagável. O caminho é longo e as soluções não aparecem do dia para a noite. Mas cada vez que um presidente de clube rival dá entrevista pra aparecer, cada vez que o Flamengo faz jogo duro por meio milhão, o recado que chega é o mesmo: enquanto o Corinthians não acertar as contas, vai continuar sendo alvo fácil.

A Fiel sabe disso. E torce, com toda a força, para que essa gestão seja diferente das que vieram antes.

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