
Rosario 0 x 0 Corinthians: empate valioso na Argentina e a novela Memphis ganha outro capítulo
No Gigante de Arroyito, o Corinthians controlou o primeiro tempo, sobreviveu ao segundo e voltou para São Paulo com um resultado que muita gente não acreditava possível. Mas fora de campo, a política do Parque São Jorge ferve
Emerson Melo
8/14/2026
Se perguntassem antes do jogo se eu assinaria embaixo de um empate do Corinthians contra o Rosario Central na Argentina, (ainda mais com Pedro Raul no ataque), a resposta seria sim sem hesitar. E o belo jogo que o Coringão fez (principalmente no primeiro tempo) tornou isso possível!
Corinthians e Rosario Central empataram por 0 a 0 no Gigante de Arroyito, em Rosário, pelo jogo de ida das oitavas de final da Copa Libertadores da América 2026. O resultado contraria os prognósticos
de boa parte da imprensa, que esperava uma noite bem mais difícil para o Timão na Argentina. O jogo de volta acontece na próxima quinta-feira, dia 20, às 21h30, na Neo Química Arena.
Ficha técnica
Resultado - Rosario Central 0 x 0 Corinthians
Local - Gigante de Arroyito · Rosário, Argentina
Competição - Libertadores 2026 · Oitavas · Jogo de ida
Expulsão - Alan (Corinthians) · ~80'/2°T
Jogo de volta - 20/08 · 21h30 · Neo Química Arena
Primeiro tempo controlado — do jeito certo
A escalação foi basicamente a mesma dos últimos jogos: Hugo Souza no gol, a defesa titular com Matheuzinho, Gabriel Paulista, Gustavo Henrique e Matheus Bidu, e o meio-campo com Raniele, Alan no lugar do lesionado André, Breno Bidon e Garro. No ataque, Kaio César — que era dúvida até pouco antes do jogo — foi confirmado junto com Pedro Raul.
O Corinthians do primeiro tempo foi exatamente o que se espera de um time que joga fora de casa numa Libertadores com o objetivo de sair sem tomar gol. Controlou a posse, não deu espaços para o Rosario sair em velocidade e criou a melhor chance do jogo: uma bola que pingou no travessão duas vezes sem entrar. Dessas que a gente fica olhando para o céu perguntando como que não foi gol.
Pedro Raul também participou de uma boa jogada — atrapalhou o zagueiro adversário numa disputa, a bola sobrou para Kaio César, que trouxe para o meio e finalizou com perigo. Se fosse no gol, não teria defesa. Saiu alta.
Matheuzinho fez uma das melhores partidas recentes, Raniele foi consistente, e Alan, antes da expulsão, cumpriu bem a função de primeiro volante defensivo. O time mostrou organização e não permitiu que o Gigante de Arroyito intimidasse.
Segundo tempo mais difícil — mas Hugo estava lá
O Rosario Central voltou do intervalo com mais intensidade e passou a pressionar com mais volume. O Gigante de Arroyito esquentou, a torcida argentina empurrou, e o Corinthians precisou recuar um pouco para conter o avanço adversário. Hugo Souza foi exigido com uma finalização de fora da área que defendeu bem — um dos lances que mostram o nível do goleiro numa noite em que ele foi pouco acionado mas decisivo quando precisou ser.
A expulsão de Alan a cerca de dez minutos do fim complicou a situação. Com um a menos, o Corinthians ficou ainda mais retrancado e o Rosario teve mais espaço para criar. Mas a defesa aguentou. A zaga não deu brechas claras, e o 0 a 0 foi preservado até o apito final.
Resultado absolutamente positivo. Jogar fora de casa na Libertadores, na Argentina, com a pressão hostil da torcida (inclusive, pra variar, com atos de racismo) com Pedro Raul de centroavante, jogador expulso...
Rodrigo Garro pra mim ficou um pouco abaixo do esperado — menos presente do que o habitual, com menos triangulações e menos participação nas transições ofensivas. Mas há uma reflexão que merece ser feita: parte do que faz Garro funcionar é ter um atacante que se movimenta entre as linhas, que aparece em espaços, que dá opções de passe. Yuri Alberto faz isso naturalmente. Pedro Raul não faz — ele é estático, espera cruzamento, trabalha bem no jogo aéreo.
Não dá para culpar Garro por jogar menos quando o parceiro de ataque não cria os mesmos espaços que o camisa 9 cria. É uma limitação do elenco, não necessariamente do argentino.
Elenco Blindado?
Uma percepção que o jogo deixou foi a de que o grupo conseguiu se isolar do caos político que domina os bastidores do Parque São Jorge. Gustavo Henrique deu declaração durante a semana falando em comprometimento e foco — e em campo o time mostrou exatamente isso. Dividiu bolas, correu, se organizou defensivamente e não entregou o jogo nos momentos difíceis do segundo tempo.
Num ambiente com salários questionados, novela de Memphis sem fim, Conselho Deliberativo em guerra e decisões políticas que afastam jogadores importantes, conseguir esse nível de concentração coletiva diz muito sobre o trabalho de Fernando Diniz com o elenco disponível.
A novela do Memphis que não acaba
O tema inevitável que voltou com força esta semana: Memphis Depay. Quando parecia que a renovação tinha sido definitivamente enterrada por Osmar Stabile, as torcidas organizadas se manifestaram publicamente. Gaviões da Fiel, Camisa 12 e outras organizadas publicaram notas questionando o ato, mais político que pensando no clube. E o que era dado como encerrado voltou a ser discutido nos bastidores — com informações de que Stabile pode tentar reverter a decisão.
A questão que qualquer corintiano engajado entende é a seguinte: o contrato que se recusa a assinar agora é significativamente mais favorável ao clube do que o contrato anterior em sua chegada. Memphis aceitou redução salarial expressiva, o acordo estava praticamente desenhado. A negativa de Stabile não tem explicação financeira — tem explicação política.
É exatamente aí que mora o problema crônico do modelo associativo: decisões que deveriam ser tomadas pelo bem do clube acabam sendo tomadas pelo bem de grupos internos, de posicionamentos políticos e de disputas de poder que a Fiel paga do lado de fora. O Corinthians com transfer ban não podendo repor a perda, o atleta aceitando uma renovação mais barata do que o contrato anterior (esse sim bem questionável e que não foi questionado por esses que agora falam em "responsabilidade financiera"), a possibilidade de pagar uma divida (que vai existir de qualquer maeira) sem os juros e de maneira parcelad... Deveria ser uma decisão fácil. Virou polêmica. Isso diz tudo.
Romeu Tuma voltou — e o precedente assusta
Mais um elemento que agita o Parque São Jorge: Romeu Tuma Junior voltou ao comando do Conselho Deliberativo, anulando decisões que haviam sido tomadas na sua ausência — incluindo processos disciplinares contra ex-dirigentes. Para quem acompanhou as expulsões de Andrés Sanchez e Augusto Melo com esperança de uma limpeza institucional real, o retorno de Tuma e a anulação de decisões abre um precedente preocupante.
Se as expulsões puderem ser contestadas e revertidas, o que foi construído nos últimos tempos em termos de transparência e responsabilização pode ser desfeito. E aí volta a sensação de que o Corinthians está preso num ciclo em que as mesmas pessoas voltam, os mesmos problemas se repetem e o clube fica em segundo plano.
O que vem pela frente
Na quinta-feira, dia 20, a Neo Química Arena recebe o Rosario Central pelo jogo de volta. Com o empate no bolso, o Corinthians decide em casa — e qualquer vitória classifica diretamente. Um empate leva aos pênaltis.
A Fiel vai estar lá. O caldeirão vai estar armado. E se o time mostrar o que mostrou no Gigante de Arroyito, o Corinthians tem condições de avançar às quartas de final da Libertadores.
Antes disso, no domingo, tem Cruzeiro pelo Brasileirão. Calendário apertado, elenco curto, mas momento de confiança. É isso que importa.

Tá procurando aquele item top do Corinthians?








