
Corinthians faz oferta de renovação com Memphis Depay — mas atrasa salários dos jogadores de novo
O clube formalizou a proposta sem depender de patrocinadores e acredita na renovação com Memphis Depay. O problema é que ao mesmo tempo os vencimentos de junho ainda não foram pagos — e essa contradição diz muito sobre o momento financeiro do Timão
Emerson Melo
6/10/2026
O Corinthians quer renovar com Memphis Depay. Isso é fato, e agora é oficial — a proposta foi entregue ao estafe do holandês. O problema é que na mesma semana em que o clube sinaliza querer manter seu jogador mais famoso, os salários de junho do elenco inteiro estão em atraso. A ironia não passa despercebida.
O Corinthians formalizou a proposta de renovação contratual para Memphis Depay e aguarda a resposta do atacante holandês. A oferta foi entregue ao estafe do jogador e,
segundo apuração do UOL e confirmada pelo Meu Timão, já contempla todas as condições que a atual gestão considera necessárias para viabilizar a continuidade do camisa 10 no Parque São Jorge. A diretoria mantém tom otimista e acredita na permanência.
Só que nesta mesma semana, o Corinthians voltou a atrasar os salários dos jogadores e da comissão técnica. Os vencimentos de junho estavam previstos para serem pagos até o último sábado, dia 6 — e até o momento seguem em aberto, sem previsão de pagamento. É o segundo atraso do ano, depois dos salários de abril que também saíram fora do prazo.
Dois fatos simultâneos que formam um retrato fiel do momento do clube: ambicioso o suficiente para tentar manter um dos atacantes mais famosos do planeta, mas financeiramente frágil o suficiente para não conseguir pagar em dia os funcionários que já estão na folha. Esse é o Corinthians de junho de 2026.
O que mudou na proposta — sem patrocinadores dessa vez
A principal novidade desta oferta em relação a todas as tentativas anteriores é estrutural: a proposta de renovação não contém qualquer valor atrelado a parcerias comerciais ou patrocínios de outras empresas terceiras, sendo custeada 100% com recursos do próprio clube.
Isso representa uma mudança significativa de abordagem. Ao longo dos últimos meses, o Corinthians tentou montar uma operação em que patrocinadores bancassem o salário de Memphis — a BYD foi o nome mais cogitado, até optar pelo naming rights do Morumbi. A Esportes da Sorte tinha um acordo verbal para cobrir metade. Mas o segundo parceiro nunca apareceu, e a estratégia de dividir o salário com terceiros foi abandonada.
Agora o clube assume a conta sozinho — o que exige uma redução salarial relevante. Memphis teria aceitado reduzir quase pela metade o salário atual de R$ 3,5 milhões para seguir no Brasil. Ou seja, a proposta parte de um patamar próximo a R$ 1,5 milhão a R$ 1,8 milhão mensais — ainda um valor alto para a realidade do clube, mas bem mais administrável do que o contrato original.
A proposta de renovação — o que se sabe
Contrato atual termina - 31 de julho de 2026
Salário atual ~ R$ 3,5 milhões/mês
Nova proposta Redução de ~50% · sem patrocinadores
Duração pretendida - Mais duas temporadas
Pendências em aberto ~R$ 40 mi em luvas e bônus atrasados
O elefante na sala: R$ 40 milhões em pendências
Além do salário do novo contrato, há outro capítulo financeiro delicado envolvendo Memphis e o Corinthians: o clube negocia com Memphis uma forma de quitar cerca de R$ 40 milhões referentes a luvas e bônus por metas contratuais em atraso. Caso o novo contrato seja firmado, esses aditivos não serão incluídos.
Traduzindo: o Corinthians deve R$ 40 milhões a Memphis por compromissos do contrato atual que não foram cumpridos. A proposta de renovação inclui, de forma implícita, uma renegociação desse débito — provavelmente com parcelamento ou abatimento. Para Memphis aceitar ficar, precisaria não só topar o salário menor, mas também renegociar o que já lhe é de direito.
É um pedido grande para um jogador que veio ao Brasil com a promessa de um contrato robusto, que entregou três títulos ao clube — Copa do Brasil 2025, Paulistão 2025 e Supercopa 2026 — e que hoje está na Copa do Mundo pela Holanda depois de dois anos fora das grandes competições internacionais.
Como o clube vai pagar — as saídas como trunfo
A diretoria do Corinthians conta com a próxima janela de transferências para viabilizar a operação financeira. A ideia é aproveitar uma folga salarial gerada pela saída de jogadores para cobrir os vencimentos de Memphis, que originalmente não estavam previstos no orçamento de salários estipulado para o segundo semestre.
Em outras palavras: o Corinthians só consegue manter Memphis se vender outros jogadores primeiro. Yuri Alberto, que quer sair, é o nome mais relevante. Hugo Souza, alvo do Milan. André e Breno Bidon, com mercado europeu. Gui Negão, sondado pelo Internacional e pelo Galatasaray. Cada saída abre espaço na folha — e é esse espaço que o clube pretende usar para bancar o holandês.
O plano faz sentido no papel. O problema é que é um plano que depende de muitas peças se encaixando ao mesmo tempo: os jogadores precisam ter propostas, o Corinthians precisa aceitar os valores, as saídas precisam acontecer antes do contrato de Memphis encerrar em 31 de julho. São muitas variáveis para um clube que historicamente complica o que poderia ser simples.
O segundo atraso de salários — e o que ele revela
Enquanto a diretoria negocia a permanência de Memphis, o Corinthians atrasou o pagamento dos salários dos jogadores e da comissão técnica. Os vencimentos estavam previstos para serem pagos até o último sábado (6). Contudo, seguem em aberto e, até o momento, não há uma previsão de quando serão pagos. É o segundo atraso do ano — o mesmo problema havia ocorrido com os salários de abril.
A contradição é difícil de ignorar. O clube tenta convencer um atacante que recebe R$ 3,5 milhões por mês a renovar — enquanto não consegue pagar em dia os demais jogadores do elenco. Para os atletas que ganham bem menos do que Memphis e que também estão com o salário atrasado, a situação é, no mínimo, desconcertante.
Para o próprio Memphis, o atraso dos salários do elenco é mais um dado que entra na equação da decisão. Um clube que atrasa os pagamentos duas vezes em seis meses, que deve R$ 40 milhões em luvas, que tem dívida bilionária e que só consegue pagar o novo contrato se vender outros jogadores — é esse o projeto que o holandês de 32 anos vai escolher para os próximos dois anos da carreira?
Memphis na Copa do Mundo — e o tempo correndo
Memphis está atualmente em solo norte-americano representando a Holanda na Copa do Mundo, que tem início em 11 de junho. O atleta terá liberdade para avaliar os termos sem pressão por um retorno imediato. Mesmo convocado pela seleção da Holanda para a disputa da Copa do Mundo, Memphis poderá definir o prazo de sua resposta. Internamente, o Corinthians mantém uma relação considerada amistosa com o estafe do camisa 10 e respeita o momento vivido pelo atleta durante o torneio.
Mas o tempo não para. O contrato encerra em 31 de julho — semanas depois do fim da Copa. A janela de transferências abre em 20 de julho. Se Memphis decidir aceitar outra proposta durante o torneio, o Corinthians pode nem saber antes que seja tarde demais.
O que a Fiel torce para acontecer
Memphis Depay foi, ao longo de sua passagem pelo Corinthians, muito mais do que um jogador. Foi um símbolo de que o clube poderia atrair grandes nomes, uma vitrine internacional, um catalisador de conquistas. Os três títulos que ele ajudou a conquistar estão gravados na história — e a torcida sabe disso.
Ver Memphis sair em julho, de graça, com R$ 40 milhões ainda devidos a ele e sem ao menos uma proposta digna na mesa seria o desfecho mais melancólico possível para uma história que poderia ter tido outro final. A proposta foi feita. A vontade de manter existe. Agora é torcer para que as peças se encaixem — as vendas aconteçam, a folha abra espaço, e o camisa 10 escolha ficar.
E que os salários de junho sejam pagos logo. Porque pedir a um jogador para aceitar condições especiais enquanto seus companheiros de vestiário estão com o pagamento atrasado é, no mínimo, uma negociação que começa com o pé errado.


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